Contra a Corrente



Numa feliz coincidência, ‘Contra a Corrente’ é também o nome de uma colectânea de ensaios de Isaiah Berlin editada em 1979. Qual era, então, a corrente à qual se opunha Berlin? Esta era a corrente positivista e racionalista que defende, já desde o advento da filosofia platónica, a ideia de que para cada dilema humano existe uma resposta racional que, precisamente por ser racional, configura uma solução moralmente verdadeira e perfeita. Aí, algo que seja racional é então por definição também algo que é válido e universal e que representa um ideal, uma coisa que não poderá ser melhorada – a perfeição da verdade moral, pois então.

Esta noção racionalista do mundo, uma noção que faz equivaler a racionalidade com a verdade, é uma ideia basilar da sociedade contemporânea que vai tomando diferentes formas em diferentes campos. Tornou-se corrente porque, com o Iluminismo, triunfou não apenas no mundo da ciência natural, mas também da filosofia, da história e diversas ciências não exactas – as ditas ‘humanas’ – , como a sociologia, economia, etc., bem como passou a fazer parte do imaginário cultural da sociedade ocidental. A título de exemplo, esta noção é de tal modo parte integrante do nosso modo de pensar que se infiltrou mesmo na nossa linguagem: quem “não tem razão” é alguém que erra, que demonstra não ter a verdade do seu lado; do mesmo modo, o termo ‘razão’ é simultaneamente sinónimo de causa, explicação ou justificação para qualquer coisa, em particular aquelas que não são evidentes para todos e que geram discussão. A corrente é então corrente porque é mainstream, porque é, na maior parte dos casos, mesmo que de forma inconsciente, assumida como uma verdade inquestionada, assumida, dogmática.

A Isaiah Berlin este entendimento iluminista beatífico da razão sempre fez confusão. Para ele, empiricamente, a história do pensamento humano demonstra que pessoas igualmente inteligentes, logo racionais, perante dilemas semelhantes muitas vezes escolhem soluções diferentes. A ser verdade a existência deste critério racional que permitiria aferir com infalibilidade sobre o que é verdadeiro e o que é falso, em particular na vida moral, então por que razão seres igualmente racionais nunca chegaram a um acordo sobre como decidir o que é verdadeiro ou falso? Naturalmente, uma hipótese de resposta, mesmo que herética, persiste: que tal critério não existe e que a verdade moral objectiva, a tal universalidade racional e perfeita, a existir, está vedada ao conhecimento inerentemente subjectivo da razão humana.

O grande perigo deste anúncio da descoberta da verdade através da razão é, para Berlin, a abertura de uma porta para o autoritarismo: eu, utilizando a razão, descobri a melhor solução para este problema e se tu não aceitas esta verdade então significa que não estás a ser racional como eu; ora, se não estás a ser racional, e o comportamento racional é o comportamento verdadeiro, então eu tenho o dever, no teu próprio interesse, de fazer-te ver a verdade, de forçar-te a aceitar a verdade racional que, por estupidez ou por qualquer outra causa de irracionalidade, tu não consegues ver agora por ti mesmo. No teu interesse, eu forço-te a tomar a decisão certa, a fazer aquilo que é verdadeiramente bom para ti.

Para Berlin, no entanto, o mundo é de uma riqueza e complexidade muito superiores à simplicidade geométrica prescrita pelos pensadores iluministas. Ao contrário de uma solução geral e abstracta para os dilemas humanos, Berlin defende uma noção particular e concreta para cada um desses dilemas: a cada caso, o que se mantém como geral e constante é apenas a necessidade imperiosa de os seres humanos escolherem entre valores que, por uma ou outra razão, estão em conflito naquele momento. Os valores – ou seja: tudo aquilo que os humanos perseguem – são muitas vezes incompatíveis entre si, gerando dessa forma conflitos que, por não ser possível ter sol na eira e chuva no nabal simultaneamente, forçam a uma escolha. Essa escolha é feita caso a caso por cada um de nós, na melhor das nossas habilidades, e torna-se inescapável a partir do momento em que somos forçados a lidar com o mundo.

Hoje, os paladinos da verdade, sempre ciosos de imporem a sua uniformidade, aumentaram o registo: em vez de apenas empunharem o slogan da racionalidade, apesar de também o manterem, apregoam agora também o já anteriormente implícito princípio da igualdade. E ai de quem não concorde com a corrente igualitária uniformizadora: logo a turba da corrente, do alto da sua verdade moral, apelida os apóstatas de racistas, xenófobos e fascistas. Hoje, no mundo igualitário do imediato, todas as diferenças são propagandeadas como indesejáveis e esbatíveis: as económicas, as sociais, as sexuais, as morais. Naturalmente, para garantir que se torna igual aquilo que de igual nada tem, então logo se propõem os novos guardiães da moral a legislar – ou seja: impor – a igualdade através do Estado e da Lei. É essa corrente crescentemente opressora que enfrentam hoje os espíritos livres contemporâneos.

No entanto, porque o mundo não é assim, porque a verdade não é um bem apenas disponível para alguns iluminados, porque a Liberdade assente na Escolha é o princípio básico da relação do ser humano para com o mundo, então mais tarde ou mais cedo a reacção a esta imposição igualitária ocorrerá.

Num dos ensaios presentes em Against the Current, Berlin afirma que as “diferenças ignoradas se afirmam por si próprias, e no final levantam-se contra os esforços para as ultrapassarem em nome de uma assumida, ou desejada, uniformidade” – o pluralismo é, pois claro, o estado natural.

Noutro ensaio, Berlin, acerca da igualdade, acrescenta: “algumas desigualdades (por exemplo, as de condição de nascimento) são condenadas como arbitrárias e irracionais, outras (por exemplo, as baseadas na eficiência) não são, o que parece indicar que outros valores para lá da igualdade afectam os ideais até dos mais apaixonados igualitários”. Por outras palavras, o princípio da igualdade, por si só, não serve para nada: não se mandam amputar pernas para que tenhamos todos a mesma altura. Ou seja, por mais que nos tente a corrente convencer dos benefícios da igualdade supostamente moralmente verdadeira, na realidade, por detrás, há sempre uma opção de valores a decidir o que deve ou não deve ser tornado igual. É esse critério que merece, apesar dos gritos da turba, ser sempre discutido. Assim sendo, nos entretantos da histeria, em nome da Liberdade, nademos contra a corrente pois então.

Comentários

  1. Excelente artigo. De facto a questão da “igualdade” é tão incongruente quanto básica.
    Um exemplo primário: um rebanho de ovelhas. Para o pastor, nenhuma é igual. Cada uma é um indivíduo diferente com especificidades próprias.
    Contudo, para o comprador de carne todas as ovelhas são iguais e enquadram-se num único critério: carne de borrego.

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