Em concorrência as empresas vão cobrar o maior preço possível, isto é, o menor preço possível.


Existe uma espécie humana que se adapta muito bem naquele retângulo situado na ponta ocidental do continente europeu e que abarca as subespécies conhecidas por comunistas, bloquistas, socialistas imoderados, marxistas, etc. Dá para ficar com a ideia geral. Por isso, vou usar apenas o termo marxista, mesmo que Marx não fosse talvez tão marxista como estes marxistas. Mas não sou pago à palavra e tenho que usar de economia de meios para me expressar. 

O marxista vê "a empresa" como uma entidade mítica, provida de uma quantidade virtualmente infinita de dinheiro, em que o empresário paga salários baixos e cobra preços elevados porque é ganancioso. Segundo o marxista, o empresário pode sempre cobrar preços mais baixos e pagar salários mais altos. Mas, como é vilmente ganancioso, “literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza”, como dizia o Fernando, é dever do Estado intervir no mercado para corrigir esta situação.

Mas esta situação edénica aplica-se apenas às empresas dos outros - não às deles. Aí não. As empresas dos marxistas vivem num mundo escasso, em que precisam de vender para pagar os seus custos. E só podem pagar salários mais altos se venderem mais. Mas a maldita concorrência está sempre ali a chatear, a incomodar, a tirar clientela, a fazer preços mais baixos, enfim... uma selva. O governo também deve intervir aqui para corrigir esta situação ignóbil. É inadmissível que a empresa do marxista esteja sujeita à pressão da concorrência, obrigando-o a baixar os preços e a ter que pagar salários baixos para poder sobreviver. E com que fim? Não serve a concorrência apenas para baixar os preços para toda a gente e dificultar a vida a todos? A gente precisa de viver – temos as contas para pagar no fim do mês, porra! O Estado deve, assim, em nome do bem comum (isto é, o seu) restringir a concorrência de modo a que a empresa do marxista possa praticar preços mais altos e assim pagar salários mais altos. (Além disso, com preços e salários ambos 50% mais altos, por exemplo, o lucro é também mais alto em termos nominais, em euros – o empresário marxista encaixa mais cacau ao fim do mês. Mas esta parte já não é para sair cá para fora – é informação confidencial – a populaça não tem que, nem deve, saber destas coisas).

Resumindo

O empresário marxista, em concorrência, queria praticar o preço mais alto possível, mas vê-se obrigado a praticar o preço mais baixo possível, se quiser vender, pois tem que enfrentar a pressão de preços da concorrência. O empresário marxista pratica assim o preço possível. Este não pode ser muito alto, pois assim não vende; nem pode ser muito baixo, pois assim não consegue cobrir os custos. Mas isto só se aplica a ele, empresário marxista - os outros vivem num mundo de infinita abundância onde os euros caem como água de um chuveiro. Assim, colocando o Estado a “regular o mercado”, pode-se regular a concorrência e agora estabelecer o preço de uma forma mais confortável – agora sim, a gente vai pôr o preço que maximiza o lucro. O lucro em si não é agora um problema – devido à regulação da concorrência, há clientes que chegam e sobram. A questão agora é subir o preço até ao ponto em que a descida da procura seja mais que proporcional ao aumento do preço.

Quando chegar a esse ponto, a gente pára de subir. Mas o empresário marxista não é vil, nem ganancioso. Isto é apenas a lei da natureza humana – se não fossemos nós a fazer isto, outro faria. Por isso, porque não ficarmos também nós com a nossa migalhazinha da afluência do mundo? – já que tem que ser assim, pois que seja connosco.

Razões para os liberais e libertários não acharem que, por estas e por outras, o mundo é um lugar mal frequentado ou mesmo malcriado

Os libertários não devem ficar ressentidos pois, como já dizia Espinosa (cujos pais foram escorraçados aqui deste retangulo ocidental - eram judeus) Deus cria tudo o que é possível criar, esta é a necessidade interna de Deus – atualizar todo seu potencial infinito de criação. Nada vai ficar por existir, tudo acaba por existir – inclusivamente marxistas. Por isso não culpem os marxistas, eles não escolheram ser assim. Já estava determinado que iriam existir e eles são apenas a objetificação dessa ideia do criador. Como dizia o profeta: “perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”.

Mas tudo isto está bem. É assim que tem que ser. Reparem, se não houvesse marxistas eu também não teria escrito este texto. Isto para dizer que o suposto mal do mundo é o que incita à ação. O homem age para satisfazer uma necessidade. Uma necessidade que não é preenchida é um mal. A satisfação da necessidade é o bem. Portanto, só pode haver a noção de bem se houver a noção de mal. Querer um mundo só com bem é uma contradição grandiosa, uma eloquente incoerencia, meus amigos. Não há volta a dar. Como dizia Hegel, a diferença entre o jovem e o velho é que o primeiro só vê coisas erradas no mundo e, por isso, só pensa em mudá-lo; já o segundo, acaba por perceber que “o mundo é como tem que ser”, e também isto acaba por passar. “This too, shall pass”. E, pessoalmente, como não estou a ir para novo...é melhor que comece a aceitar os factos do mundo.

Comentários

  1. «O marxista vê "a empresa" como uma entidade mítica, provida de uma quantidade virtualmente infinita de dinheiro, em que o empresário paga salários baixos e cobra preços elevados porque é ganancioso. »

    Penso que acabou de escrever um enorme disparate- pelo que eu me lembro, a posição marxista clássica é a de que o capitalista é obrigado pela lógica do sistema a explorar os trabalhadores, quer queira quer não, e que isso é independente da sua moralidade individual; uma ideia clássica entre o marxismo é que o capitalista acaba por estar tão "alienado" como o trabalhador, no sentido em que também é esmagado por forças que não controla.

    Aliás, a teoria marxista do colapso do capitalismo, em que os capitalistas, cada um querendo aumentar os seus lucros, provocam no conjunto da economia uma REDUÇÃO dos lucros, é um exemplo notório.

    [Agora não tenho tempo nem me apetece ir procurar fontes para comprovar o que digo, mas penso que não será muito dificil alguém achar exemplos entre os textos "clássicos"]

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    1. Olá Miguel,

      Acabaste de significar que a Catarina Martins e quejand@s não são marxistas.

      Porquê? Por que se fossem seguiriam o conceito que tu explicas. Mas não. Não o seguem.

      Então o que seguem? Pois é. O parasitismo dará mau nome ao marxismo?

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    2. Olá Miguel, fiz questão de mencionar no texto que o Marx era menos marxista do que os "marxistas". O texto não se refere ao Marx mas a uma esquerda que partilha de um certo Weltanschauung que, à falta de nome melhor, designei, por "marxismo", por razões óbvias de simpatias ideológicas.

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    3. "Acabaste de significar que a Catarina Martins e quejand@s não são marxistas."

      Talvez; aliás, isto fez-me lembrar uma conversa que em tempos tive no Vento Sueste:

      https://ventosueste.blogspot.com/2013/07/a-direita-e-malefica.html

      Sobretudo, comparar o meu post (ou o post de Chris Dillow que eu re-posto) com a resposta do João Vasco

      p.s. eu já respondi ao outro post, não sei se viste.

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