Concretização ou doutrina?


Rodrigo,

Estou a furar a quarentena dentro do meu inalienável direito à Liberdade.

Concretamente: furo a quarentena;

Doutrinariamente: dentro do meu Direito Natural à Liberdade e Propriedade.

O ponto, à laia de introdução na resposta que te ofereço - agradecendo o teu tempo e disponibilidade, além da coragem (porque sim, é precisa coragem para desafiar o pensamento politicamente correcto nos tempos que correm) - é que penso que o teu texto padece de um equívoco de base:

Eu fui concreto nas críticas que faço à IL no texto de ontem. Tu invocaste grandes autores em defesa de um relativismo que se deve aplicar a - várias posições liberais que se podem adoptar dentro de uma enorme latitude do pensamento liberal -.

Ora isto abre porta a que tudo e o seu contrário tenha a mesma validade "epistemológica", ou melhor dizendo doutrinária Liberal. E eu penso que estás errado. Ambos sabemos que o Liberalismo é uma doutrina ampla, complexa e com enormes variantes dentro de princípios aceites comumente entre grandes autores.  Vou então apelar a alguns desses princípios geralmente aceites para fundamentar o quão concreto foi  o meu raciocínio de ontem enquanto era também doutrinariamente: inatacável do ponto de vista Liberal..

Esses princípios são dois:

1. Direito Natural à Propriedade;

2. Direito Natural à Liberdade.

Junto um terceiro que deriva directamente da execução e prática do Direito Natural: a Responsabilidade Individual.

Podemos então convir que os princípios acima referidos estão na base do Liberalismo e que se formos contra eles estamos a ser iliberais.

Autor genericamente aceite que os definiu e estabeleceu modernamente: John Locke, mas os princípios têm o primeiro registo em letra na Antiga Grécia e foram identificados por Cícero e outros.

Convenhamos (concordas?) que todo o edifício do Liberalismo nasce da aceitação do Direito Natural, correcto? Não querendo entrar na natureza da sua fonte, são princípios basilares de onde deriva todo o edificio conceptual liberal-clássico. E, aqui, excluo os liberais-sociais que derivaram na vertente estatista pós-Revolução Francesa e que são positivistas. A estes não considero Liberais. Considero "liberais" (repara no uso da minuscula) e foi a esse "liberalismo" que me referi no artigo de ontem. Tu respondeste com O Liberalismo, que no meu texto eu identifico também com o artigo do Rui Albuquerque.

Vamos então à concretização das acções governamentais lidas à luz da doutrina do Direito Natural e face também a posição que os "liberais" da IL e o Carlos Guimarães Pinto adoptaram:

1. Apoiaram a quarentena forçada, violação de:

a) Direito de Liberdade - as pessoas têm o direito inalienável à liberdade de movimentos;

b) Direito de Propriedade - é ilegítimo proibir alguém de se dirigir ao seu local de trabalho ou à empresa de que é proprietário para ganhar o seu pão. Ou seja, o governo bloqueou o usufruto ao nosso direito de Propriedade;

c) Princípio de Responsabilidade Individual - existindo uma crise de saúde pública, estando os liberais numa condição de votar no parlamento e comunicar publicamente, a única, repara - a única posição coerente - com os princípios Liberais acima expostos seria a de apelar à responsabilidade de cada um de nós.

Fica em casa quem pode e quer, usa máscara ou não quem pode ou quer, etc, numa panóplia de opções individuais nas quais o estado apenas deve servir como veículo de informação. Se o partido "liberal" entende que os socialistas estão correctos, então única posição possível seria a abstenção e a insistência no veicular de informação avançada (que não existe em circulação nos media oficiais) sobre a epidemia e aspectos comparados com outros países.

Nós sabemos o que o estado tem feito nesta crise, não é? Tem manipulado a informação, as pessoas e o sistema para nos impor um regime cada vez mais musculado. E com o auxílio dos "liberais" que se borrifam nos princípios à luz de uma pseudo-doutrina pós-liberal com base numa doutrina inventada de "para grandes problemas, grandes remédios" que passam... por fazermos o que o estado pede e aceitarmos - ainda mais estado.

Assim, espero que vejas como a minha posição concreta de crítica é perfeitamente coerente com a doutrina mais Liberal. A profunda mesmo, a Natural, a Clássica e a melhor da Grande Tradição Cultural greco-judaica que tudo sustenta.

Os princípios não podem ser mandados às urtigas ligeiramente. Sobretudo e especialmente quando temos uma situação em que a informação está na mão dos socialistas/estatistas e tudo isto nasce porque um regime totalitarista quer impôr a mão controladora sobre grande parte do mundo ocidental. 

Agora, à laia de confissão pessoal a um grande Amigo que eu sei que é profundamente Liberal:

- Parece-me que o equívoco dos "liberais" nasce de uma profunda falta de informação sobre aquilo que é o mundo real político e geo-político.

Nasce, em algumas pessoas, de um gap intelectual que corre fundo em gerações que sempre tiveram tudo fácil no mundo pós-moderno do hiper-consumismo. Onde a cultura é fabricada à medida de gente impreparada, criada impreparada, pelos media e pelas escolas/universidades. Não perceberam - porque para isso tem de se estudar os autores revisionistas, ou então estar-se dentro da manobra socialista ao nível das elites que controlam, que a cultura prática política, o sentido de voto e as grandes escolhas sobretudo em todas as causas fracturantes (utilitárias no avanço do totalitarismo), são impostas top-down. E a crise actual tem todos os sinais de ser uma imposição top-down.

E a eles, a esses "liberais", sobrevém a enorme inconsciência da manipulação crónica porque são: completamente manipulados por um sistema que os/nos escraviza. E colaboram para mais escravidão. Quase parafraseando um "grego" antigo: ajudam os Senhores do Mundo no caminho para a nossa Servidão. 

E a negação do 'marxismo-cultural', da Escola de Frankfurt, de Habermas, Foucault, Gramsci, Alinski e outros é bem representativa desse gap intelectual. Gap que pagamos todos quando deixamos que "liberais" assim cheguem ao poder no regime. E eu ajudei-os pois quis confiar. Mea culpa. Acabou.

Grande Abraço com muita Amizade.

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