The big clusterfuck

Se actos meus houver dos quais retenho algum orgulho, resumir-se-ão a tudo quanto fiz para abjurar a minha portugalidade. Não padeço do hedonismo que se espraia no areal infecto da Fonte da Telha, viajo frequentemente - o mais possível - para destinos onde o frio, a chuva e as agruras da superioridade Natural me façam recordar quão pequenos somos, tenho os media tradicionais na mesma conta em que levo as avençadas na recta de Coina, não falo alto na rua, não escarro, coloco a massa crítica de qualquer grupo num cardinal de oito pessoas - enfim, encarno os arquétipos todos que fazem abespinhar, ao mero farejo, o nacional-porreirista mediano. 

Da greve que agora se avizinha tenho pois pouco a dizer. Vejo com indisfarçado, e pecaminoso, gáudio a agitação entre os bosquímanos eclodir a meros cinco dias da anunciada hecatombe. Em Portugal, como na generalidade do sul da Europa, não se prepara nada, ninguém pensa em precaver-se, e os outliers estatísticos são temática para maluquinhos cujos hábitos de estudo os propelem, imagine-se, a ler sobre coisas que aconteceram nas calendas de antanho, quando ninguém, nem nós, nem os membros do Governo que zela pela nossa colectividade moderna e urbana, era sequer nascido. 

É pois sem assombro que faço contas de cabeça às pontas soltas que tenderão, como poderá atestar qualquer pessoa normal, a enlear-se umas nas outras quando o Estado, da sua pesporrência altiva, anuncia que serão militares da GNR e da PSP, prestes a receber formação (quando? paga por quem e a que custo? em que moldes?) para poderem conduzir veículos pesados e assim transportarem materiais perigosos. 

Certo país não produz quanto come, nem a energia da qual necessita para aquecer-se e manter o fluxo comercial em andamento, e muito menos gera pessoas novas - quando não está entretido a matá-las - que paguem tamanhos dispêndios. As gerações que estão fizeram-se, ou querem fazer-se, esteticistas, psicólogas, youtubers, jornalistas, escritores criativos, fotógrafos de carne pudibunda, jotinhas, activistas, um ror infindável de inanidades narcísicas que devem anos à cova de onde nunca os avós deveriam ter tirado um tostão para incensá-los.

Da legalidade da greve pouco importa falar, porque diariamente o Estado comete ilegalidade e ilegitimidades sobre todos aqueles que à força da extorsão o alimentam, e ademais a CRP é um documento sem tino redigido por taradinhos a quem importaria ter encarcerado em seu devido tempo. Acho pois muito bem vinda qualquer racha na patine porca do verniz que recobre esta fantasia, que é como um Truman Show à escala geológica, com as consequências mais daninhas a que o destino puder prover. 

Aquilo que ainda e sempre me faz confusão é outro epifenómeno, que só ocorre nestas alturas: o sentimento entre os autóctones é que vai ficar tudo bem, mercê das patranhas que voluntariamente engoliram activa e passivamente desde a hora do berço - vá lá, não morreram em trânsito e puderam frequentar a escola de todos doutrinados à colher de sopa na cartilha de todos - até, supondo-se, ao momento em que algum homem branco, fascista, heterosexual e carnívoro acabe por arrefinfar uma tacada no vertex de um concidadão ou de uma concidadona pela posse digladiada da última lata de salsichas no corredor das conservas. 

Carthago Delenda Est, meus meninos. Se não for esta greve, há-de ser outra. 

Comentários

  1. Isto é pouco, muito pouco, para Cartago ir
    1. Somos mestres do improviso, de resolver em cima do joelho
    2. O povo amestrado aceita quase tudo, pois está lá um governo do "bem"
    3. Se caso de catástrofe, o Draghi manda mais notas de monopólio

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