Por que critico tanto a IL?

Antes de se falar em Iniciativa Liberal, já eu e outros pensávamos que um partido liberal seria absolutamente necessário no panorama português. Ainda hoje, penso que precisamos de um partido liberal na AR como de pão para a boca: literalmente. Então, por que diacho de motivo, critico tanto o nascente partido Iniciativa Liberal? Ora, bolas, para quem não é evidente: porque desejo que a melhor IL possa subir ao parlamento. 

E a actual tem sido um partido que pareça capaz de subir ao parlamento? Em alguns aspectos, sim: 
- têm reforçado a mensagem de liberalismo económico;
- os candidatos apresentados têm tido bom nível. 

E inclusivamente até já contribuí monetariamente duas vezes para os cartazes e actividades da IL. Logo, sou a favor da IL.

Então de que não gosto?

Ora, não gosto:
- da adesão à agenda bloquista dos costumes; 
- de ver o partido em parte aprisionado por jovens com pouca noção de ciência política ou pouca consciência do que é o liberalismo-clássico;
- de ver como se confunde o "liberalismo" à Rawls e Proudohn (que é socialismo) com liberalismo à Mises e Hayek;
- de suspeitar que grande parte dos que militam na IL nem conhecem quaisquer referências teóricas fundamentais para entender o fenómeno cultural liberal;
- da atávica rejeição por parte de membros da IL dos "conservadores" por quem se nutre um óbvio desprezo. 

Quanto à rejeição dos conservadores:

- os conservadores-liberais, que em pouco se distinguem dos liberais-clássicos, são liberais na economia, muitos minarquistas mesmo, e tolerantes nos costumes de todos exigindo o estado de fora dessas questões. Ou seja, todas as culturas devem ser respeitadas e deixadas evoluir organicamente sem intervenção de ninguém sobre ninguém, muito menos pela força coerciva do estado. 

E aí, a IL tem falhado. 

Como partido, qualquer partido, a IL deseja o poder para implementar as suas políticas e visões da sociedade. Almeja conquistar o poder e interferir para fazer valer a sua visão de sociedade. Se no campo económico tal é perfeitamente legítimo, pois o objectivo da IL é reduzir a presença do estado, liberalizar e permitir mais realização individual, no campo dos costumes já não é assim. Não é liberalmente legítimo participar em marchas gay ou defender aspectos que dependem inteiramente da liberdade individual de cada um. Porquê? Porque um partido no poder, nos costumes, tentará sempre impôr uma posição que domine sobre as outras usando o poder do estado. E há tantas orientações de costumes como famílias ou indivíduos. Regular os costumes é absolutamente iliberal. Esta é a posição coerente do conservador moderno e do liberal-clássico. 

A questão seria irrelevante se tal não implicasse um aprisionamento da IL por parte de "grupos" que, sem o saberem, com certeza, condenam a IL a ser um partido mais pequeno e menos votado impedindo-o de chegar à Assembleia da República. Tendo agenda de costumes, alienam grande parte do eleitorado potencial que não quer o estado a meter-se nas suas vidas pessoais e o quer também fora das suas vidas profissionais.  

Notem bem, por favor: o eleitorado potencial da IL não me parece estar nos jovens que estão já conquistados pelo BE e PAN. Está no eleitorado mais velho, de 35 anos para cima, até à idade da reforma, que luta e labuta todos os dias para chegar ao fim do mês. Pessoas que se preocupam com o futuro dos filhos, com a sua educação e bem-estar, quer o melhor para eles, e em consequência, para o país. Isto não é claro e límpido?  Por que motivo então a IL se foca tanto nessas faixas mais jovens? Não é possível substituir anos de doutrinação nas escolas e mass-media por doutrina anti-intuitiva que ainda por cima é maldita pelos heróis dos miúdos. E, sobretudo, valerá a pena quando existe uma maioria de população mais velha que anseia por explicitação de valores liberais por parte de um partido? Os jovens lá chegarão por si sós. Amadurecerão, crescerão, terão dificuldades na vida na relação com o estado que os tornarão liberais. Aí a frase do cartaz: "És liberal e não sabias" far-lhes-á sentido pleno. 

Ou então, e calo-me para sempre: a IL fez um estudo de marketing e concluiu que a maior parte do seu eleitorado potencial está nas camadas mais jovens? O que me parece difícil olhando para esta pirâmide etária de Portugal em 2019.   

Comentários

  1. Gostei do que li. Tens razão mas é preciso que as pessoas amadureçam as ideias. Deixa-as crescer.....

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  2. João, é um bom artigo em que explica as suas opiniões.
    Deixe me só contrapor com as minhas, para ter outro ponto de vista (não vou ser tão eloquente nem extensa):
    Já não sou jovem, tenho 30 anos. Sou educada, tenho mestrado. Nunca li Hayek nem Mises, com excepção de uns excertos. Mas mesmo assim há muito tempo que defendo a liberdade como um dos mais importantes valores a preservar. Entusiasmei-me por isso quando vi a IL emergir.
    Ao mesmo tempo, ou talvez condição para o acima, sou conservadora católica. Fui mandatária para o referendo do aborto. Porque acredito na defesa da vida humana. Mas tenho vindo a achar que posso ter essa posição pessoal, posso até tentar convencer outra pessoa, mas não posso obrigar porque as pessoas no fim do dia vão sempre fazer o que elas acham melhor. Se acho que o estado podia incentivar certas opções mais que outras (dar a luz vs abortar)? Sim, acho, porque há opções mais úteis para a sociedade. Se o aborto deve ser crininalizado? Bom, não resolve muito também.
    Não sou militante. Sou simpatizante. Tenho reservas e tenho posições que me levariam a fazer algumas coisas de maneira diferente - mas as tantas isso era um partido para cada um... O que acho que é vantajoso na IL é por os temas liberais em discussão e dar espaço para diferentes opiniões dentro do partido. Se é só de jovens? Talvez, por ser muito presente nas redes sociais, mas isso não tira mérito, é só um facto.

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