O que é um conservador-liberal?

A página no Facebook da Iniciativa Liberal Lisboa publicou um texto de opinião a explicar isto:

"O problema do conservadorismo "liberal"

No limitado espectro político português, os liberais sempre foram poucos e sempre pecaram por aparecerem associados à suposta “ala liberal” do CDS. Outros afirmam-se ainda com a fantástica dualidade “liberal na economia, conservador nos costumes”. O que estas pessoas estão a dizer, no fundo, é que a liberdade é o valor fundamental, fazendo a excepção aos casos em que não gostam dessa liberdade. O mercado pode ser livre, mas Deus nos livre se um senhor for para a cama com outro senhor. E digo “Deus nos livre” de propósito. Não nos desenganemos: o fundamento é sempre a suposta moral católica/cristã, apesar de quase nunca o querem admitir.

A liberdade é o valor fundamental. Isso não se aplica apenas a questões económicas. Tem de se aplicar a todas as questões. Se o fundamento para o mercado livre é a liberdade do indíviduo, é de uma profunda hipocrisia que o indíviduo deixe de ter essa liberdade quando ofende a “moral” e os “bons costumes”. Podemos ter liberdade económica, desde que essa liberdade não seja usada para algo que seja diferente da “norma” e da tradição. É, naturalmente, hipócrita que assim seja. Os conservadores alegam que a canábis tem de ser proíbida porque “faz mal”, ao mesmo tempo que aceitam álcool e tabaco com liberdade económica. Os conservadores alegam que gostam de liberdade, desde que os homossexuais não se casem nem construam famílias porque isso destroí o seu conceito de “família tradicional”. Os conservadores fingem que prezam a liberdade ao mesmo tempo que recusam que um indíviduo possa decidir sobre a sua própria vida e o seu próprio corpo. O argumento é, no caso da eutanásia, e como até já por aqui abordei, que “a nossa vida não nos pertence”, e portanto não nos cabe a nós decidir sobre ela. Não me ocorre maior e mais obsceno ataque à liberdade.

Na verdade, o conservador detesta a liberdade e o seu modelo de sociedade é um passado que nunca existiu.

Sob a alçada de termos de significado pouco claro como “marxismo cultural” ou “ideologia de género”, esta direita conservadora ataca a esquerda que repugna, muitas vezes sem saber porquê. Digo isto, porque a esquerda dita progressista está cada vez mais a tornar-se também ela conservadora. Longe vão os tempos da luta contra a censura e da liberdade de expressão. Hoje em dia a liberdade é atacada tanto à direita como à esquerda, tanto em nome da moral e “bons costumes” como em nome da suposta justiça social e do absurdo direito a não ser ofendido. Mais escreverei sobre isso no futuro.

O importante a reter é que a liberdade não pode ser selectiva."

Comentário ao texto:

1. Tal como se diz na primeira frase, "os liberais sempre foram poucos". E assim continuarão se em plena campanha eleitoral uma página de um partido onde os conservadores-liberais portugueses estão a pensar votar escrever textos destes e, para mais, os defender na caixa de comentários como se a opinião transmitida fosse a oficial. 

2. Ser "liberal na economia e conservador nos costumes" é de facto algo que define um conservador-liberal. Estes querem um estado menor, algumas vezes até minarquista. Mas, e aqui é que está a enorme confusão do autor do texto, os conservadores-liberais querem o estado fora dos costumes Os conservadores-liberais não são católicos ultramontanos opostos a tudo quando seja "modernidade". Os conservadores-liberais opõem-se, isso sim, a que a esquerda use o poder compulsivo do estado para alterar os costumes em nome de um progressismo ideológico que apenas serve os fins da esquerda.    

3. Ser conservador-liberal é querer o estado fora da economia e fora dos costumes. Jamais deve existir uma estrutura central de gestão do progressismo dos costumes, que é o que temos agora. Exemplo disto é o Ministério da Educação transformado em máquina de doutrinação dos nossos filhos pela mão da esquerda moderada e da esquerda radical. Exemplo dessa intervenção dirigista iliberal é a doutrinação sobre a ideologia de género. Qualquer liberal que se afirme liberal e saiba o que isso significa, tem de se opôr ao dirigismo estatal, certo? Pois tal como os conservadores-liberais.

4. Ser conservador-liberal significa respeitar os costumes e tradições de todos os grupos sociais. Respeitar e deixar esses costumes evoluir autónoma, naturalmente e sem intervenção do estado. Que os católicos sejam católicos; os mormon, mormon; os evangélicos, evangélicos; os muçulmanos, muçulmanos. 

5. Ser conservador-liberal é deixar as coisas fluir naturalmente sujeitas a uma torrente de mudança, tal como disse Chesterton:

“All conservatism is based upon the idea that if you leave things alone you leave them as they are. But you do not. If you leave a thing alone you leave it to a torrent of change.”.

6. Compreende-se o texto da Iniciativa Liberal Lisboa no prisma de que o que diz é o que ouviu nas escolas e meios ambientes habituais portugueses dominados pela cultura de esquerda. - Sim. O que o autor diz é o que qualquer esquerdista diria sobre os conservadores, confundindo-os com a definição comunista, feita com o propósito de manipular o pensamento popular, que reza: "conservador é reaccionário". Não o é. E o facto é que muitos conservadores-liberais, mais velhos e mais experientes, provavelmente, que o autor do texto, pensam de facto votar na Iniciativa Liberal onde se encontram jovens assim, voluntariosos, defensores de um estado menor, mas que cresceram no ambiente dominado pela cultura de esquerda e sujeitos à intervenção nos costumes (lá está) que o socialismo português tenta fazer desde o 25 de Abril.  

7. Na imagem que ilustra o post pode ver-se a intersecção dos subconjuntos liberalismo e conservadorismo. Em termos de eleitorado potencial, é muito mais difícil convencer as pessoas de que são liberais (medo do neo-liberalismo), do que são conservadoras (muitos portugueses são-no naturalmente). Assim, para a IL, acarinhar os conservadores que também querem menos estado em todos os aspectos: na economia, e nos costumes, deveria ser boa táctica e melhor estratégia.

Votos de Boa Campanha Eleitoral. Estamos juntos. 

Comentários

  1. E tens certeza que é isso que defendem a maior parte das pessoas que se autoidentificam como "liberais na economia, conservadores nos costumes"? É que a mim parece-me um bocado ilógico alguém que defende esse "package" ideológico (que é liberal em tudo, tanto na economia como no resto) autoidentificar-se como "liberal na economia" em vez de pura e simplesmente como "liberal" (o acrescentar um "na economia" parece dar a entender que no resto não é necessariamente liberal - é como um jardim ter uma placa dizendo "à quarta-feira é permitido jogar futebol no relavado": presume-se que nos outros dias não será).

    Como é óbvio, eu não sou a pessoa mais indicada para imaginar o que se passa na cabeça dos "liberais na economia, conservadores nos costumes", mas a mim parece-me que essa expressão faria mais sentido para identificar alguém que em "costumes" seguisse a posição conservadora (defender intervenções estatais que existissem há muito tempo e opor-se a intervenções estatais novas) mas liberalismo económico, em vez do corporativismo, anticapitalismo, proteccionismo e/ou "doutrina social da Igreja" que era frequente nos conservadores.

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  2. Miguel,
    Já leste sobre os conservadores-anarcas?

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