Uma reflexão sobre a Venezuela

As mudanças de regime impostas pelo exterior não melhoram as relações políticas ou económicas entre os estados intervenientes e os países alvo muito raramente alcançam a democracia desta forma. Independentemente de serem conduzidas de forma encoberta ou aberta, as intervenções externas orientadas a uma mudança de regime aumentam a probabilidade do estado alvo ter uma guerra civil. Isto está solidamente documentado academicamente.

Os EUA, mais propriamente a linhagem neo-conservadora republicana e os lib-dem progressistas que adoram distribuir democracia aos outros à força de bala e bombas, têm recorrentemente ignorado este aviso. O resultado destas politicas externas está a vista de todos: Afeganistão, Iraque, Líbia, Yemen, Síria....

Na Venezuela Trump tem, até agora, aguentado os falcões da guerra, os intervencionistas habituais que habitam Washington faz tempo e a sua necessidade de regime change a troco de negócios de pouco investimento e alto retorno no curto prazo e que deixam invariavelmente um rasto de sangue e destruição.

Num pais devastado pela revolução permanente rumo ao socialismo, num pais miserável onde já só há dinheiro para o exército que o aguenta, exército que teve sempre a sua lealdade comprada através de lucrativos contratos com o governo de que os seus generais beneficiam, é neste pais que Maduro deseja profundamente que Trump intervenha, que os EUA se movimentem contra ele.

Maduro conhece a longa história de intromissão dos EUA na América Latina que tão maus resultados deu no passado e fará uso disso junto dos seus compatriotas. "Não confiem nos Gringos, eles só querem as nossas riquezas e o nosso petróleo" - disse.

Não devemos esquecer também Putin e Xi Jinping e os seus investimentos no país: por exemplo, a empresa nacional de petróleo da Rússia, a Rosneft, investiu biliões na indústria nacional de petróleo e gás da Venezuela e a China em infraestruturas. Ambos querem o retorno e, sem Maduro no poder, isso poderá nunca acontecer.

"Nada contribuirá mais para o questionar da legitimidade e credibilidade de Juan Guaidó do que o apoio que ele recebe dos Estados Unidos. Estamos na América Latina e isso deve ser entendido pela Casa Branca”disse recentemente um político mexicano. De facto os venezuelanos rejeitam tanto o regime de Maduro quanto a perspectiva de uma intervenção militar estrangeira para removê-lo. Eles preferem uma transferência negociada de poder, uma solução política que não exige nem merece o envolvimento dos Estados Unidos.

Todos os povos querem resolver os seus problemas sem interferências dos outros. Que Trump continue a suster os warmongers e que a diplomacia faça a seu trabalho de bastidores e silencioso são os meus desejos. De outra forma uma perigosa guerra civil venezuelana pode alastrar a toda a América Latina. Espero que o Presidente Americano tenha aprendido com a História.

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