O nosso adversário comum

Almoçava no final do ano com um bom amigo e, como habitualmente fazemos quando almoçamos, falamos de Portugal e do estado das coisas. A meio da refeição, já com alguns fait divers abordados, diz-me ele - “não achas que já não se discutem grandes ideias, grandes tendências, estratégias, formas de mudar estruturalmente este estado de coisas? Parece que tudo esbarra numa incapacidade de saber o que fazer, limitando-nos em Portugal a fazer gestão corrente”. Sem tirar os olhos do excelente Bacalhau à Brás que ia ingerindo, respondi, quiçá com alguma dose de sobranceria algo que de todo o meu meu amigo merecia, - “o que falta é definir metas e acima de tudo agir, já chega de converseta e discussão”.
Só há duas maneiras de organizar uma sociedade. Ou por imposição de uma determinada ordem, com aproveitamento de determinados recursos para um determinado objectivo ou por voluntária cooperação, através de uma miríade de interacções de indivíduos ou/e de organizações desses próprios indivíduos. 
Todos os “ismos” políticos se aproveitam mais ou menos destas duas abordagens, e pretendem responder a questão central; Quem vai tomar as decisões, quem vai fazer as escolhas em relação a nossa vida; nós ou outros por nós?
De alguma forma o Estado no tempo se afirmou como conjunto de meios e pessoas que nos impõe determinada ordem para que – supostamente – consigamos viver em segurança e prosperidade material e riqueza espiritual.
De alguma forma acreditamos que uma instituição que violentamente impõe seus serviços de protecção sobre as pessoas, determina unilateralmente seu preço e exclui toda a concorrência nos vai defender. 
Muitos são os que continuam a achar que a melhor maneira de proteger os direitos de propriedade é instituindo e sustentando uma entidade coerciva cujos representantes, não apenas não são donos de nenhum dos activos dessa entidade, como também se arrogam a si próprios o direito de expropriar qualquer proprietário de qualquer propriedade, para propósitos cuja utilidade cabe apenas a eles avaliar.
Continuamos a achar que é possível a uma entidade zelar pela Justiça - entidade ela própria monopolista e coerciva – e que não perverta a Justiça a seu favor.
Em síntese, acreditamos que a maneira mais efectiva de nos protegermos contra a violência, agressão e coerção de terceiros é sustentando eternamente um vasto aparato que detém o monopólio “legitimo“ da violência, da agressão e da coerção institucionalizada, o monopólio da produção de moeda e da lei, o monopólio da imposição de valores e conceitos, através de uma escola pública, que define conteúdos e métodos e dos meios de comunicação social publica que não subsistiriam numa lógica de mercado.
Não faz sentido!
Ou bem que queremos ser espoliados ou bem que queremos viver e ter a liberdade de seguir o nosso caminho, sem que, para que vivamos em Paz, haja uma organização que nos rouba, nos agride e nos coage em tudo, empacotando essas acções em atitudes de grande benevolência e bondade, orientadas para o “bem comum” e a “justiça social”, algo que ninguém de boa fé ou boa vontade consegue definir o que é.
Desta forma repito: Quem vai tomar as decisões? quem vai fazer as escolhas em relação a nossa vida; nós ou outros por nós? 
É por isso que penso que todos os que aceitam que o estatismo e o seu excessivo poder nas sociedades actuais deve ser combatido devem estar neste momento próximos, unidos e focados nesta acção.
Como disse Huerta de Soto “o estatismo contraria a natureza humana, dado que consiste no exercício sistemático e monopolístico de uma coerção que, em todas as áreas onde a sua acção é sentida (incluindo as que correspondem à definição da lei e à manutenção da ordem pública), bloqueia a criatividade e a coordenação empresarial, que são precisamente as mais típicas e essenciais manifestações da natureza humana. Acresce ainda que, como já vimos, o estatismo estimula e impulsiona a irresponsabilidade e a corrupção moral, pois desvia o foco do comportamento humano para a manipulação privilegiada das rédeas do poder político, dentro de um contexto de inerradicável ignorância que torna impossível saber os custos de cada acção governamental.”
Se diminuirmos o poder do Estado na imposição de regras, valores e objectivos à Sociedade, se nos focarmos em impedir o seu continuo alastramento a todas as áreas da acção humana, estaremos a contribuir para uma Sociedade mais próspera e saudável. Esta é a tarefa imediata de todos os que acreditam na Liberdade.
As questões especificas que nos dividem devem ser discutidas, por exemplo, se devemos ser mais ou menos conservadores nos costumes, dedicando o nosso tempo a lutar contra esta crescente paranóia da ideologia de género ou mais ou menos liberais na economia, aplaudindo todas as acções que removam subsídios ou apoios sociais.  Isto é relevante e merece ser discutido, mas há think-tanks e universidades para esse efeito e não são de todo estas questões as essenciais para ocuparmos a nossa energia neste momento, tal a dimensão do desafio que todos devemos ter como prioridade em Portugal. 
O nosso adversário é de facto o crescimento do Estado, da sua maquinaria coerciva. Os nossos adversários são todos aqueles que defendem este crescimento, este permanente olear da máquina através de impostos, taxas, subsídios, que defendem o seu papel como elemento central das nossas vidas com o argumento de que é melhor para todos que assim seja. Não é. 
As decisões fundamentais sobre a minha vida quem as toma sou eu e não outros por mim. Acredito que com todos vocês seja igual. 
É passar a acção. O objectivo está definido. Já chega de converseta.

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